Publicado por: Purpurina | Janeiro 5, 2009

Um Coração para a SNOWSHOEE

Coração para a Snow

 

Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração meio infantil que insiste
Em pregar partidas no seu utilizador.
Rifa-se um coração que na realidade
Está um pouco usado,
Meio calejado,
Muito magoado…
E que teima em alimentar sonhos
E, cultivar ilusões.
Um pouco inconsequente
Que nunca desiste de acreditar nas gentes.
Um leviano e precipitado coração
Que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu…
“…não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero…”.
Um idealista…
Um verdadeiro sonhador…

Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
E mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
Sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
Sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
Relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração que insiste em cometer
Sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo
Em nome de causas e paixões.
Perde a compostura e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional
Que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas,
Mas que também arranca lágrimas
e fazem murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
Ou mesmo utilizado
Por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
Quem quer viver intensamente…
Contra indicado para os que apenas pretendem
Passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocente
Que se mostra sem armaduras
E deixa louco o seu utilizador.
Um coração que quando parar de bater
Ouvirá o seu utilizador dizer
Para São Pedro na hora do juízo final:
“O Senhor pode verificar. Eu fiz tudo correcto,
só errei quando vivi de sentimento.
Só me enganei e fiz tudo mal
Quando ouvi este louco coração de criança
Que insiste em não endurecer e,
que se recusa a envelhecer.”

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
Outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu utilizador.
Um amigo do peito que não maltrate
Tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconsequente.

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
Mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
Não foi adoptado, provavelmente, por se recusar
A cultivar ares selvagens ou racionais,
Por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio,
Sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
Até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
Mesmo estando fora do mercado,
Faz questão de não se modernizar,
Mas que uma vez por outra,
Constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
Seu utilizador a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta…

Poema de Clarice Lispector


Responses

  1. Nossa Muito lindo esse Poema ‘

  2. MUITOO lindo esse poema, amei *–*

  3. Esse coração é meu! O que eu faço com ele??? Lindíssimo poema!


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